Assisti ao nascimento da democracia. E, como toda a gente, fui embriagada pela esperança, engolida pela euforia e abençoada pela fé. Apesar disso, nunca festejei vitórias e o meu voto nunca elegeu ninguém. Os anos passaram, e os ideais alteraram-se; as convicções deram lugar aos interesses, a espontaneidade ao calculismo e, as palavras vindas do coração foram substituídas pela estratégia das palavras. Mas, a história foi-me revelando, e, os factos comprovando, que o foguetório e as promessas ardem ao virar da esquina. E por isso, e muito mais, fiquei com o desnorte de uma perdiz engaiolada, a minha carteira ficou anoréctica, e eu, tornei-me céptica.
Alheios e, indiferentes às utopias de uma velha a gerir a saudade e a tristeza em partes iguais, os candidatos, numa extensão teatral, em acareação incongruente, perdem a linguagem crua do prazer e, tentam conquistar votos à custa de pecados alheios, o que me parece difícil. Mais difícil será conservá-los. E, nas alegações, testando a nossa sanidade, vão esgravatando no fogo, chamuscando-se entre si e, queimando o meu voto. Mas, como diz a minha neta: tudo numa boa. Embora doa.