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sábado, 28 de novembro de 2009

O abegão



Outrora neste lugar, no recanto do abegão, muitos carros de mula estacionaram aqui. A maioria, empenados e estafados, tal como a vida dos pequenos agricultores, seus utilizadores.
Lugar de conversa reprimida e de leitura escondida. Quiçá, um olhar cúmplice como forma de aviso, transforma a palestra num silêncio mais cortante que a lâmina da enxó. Bastava essa força amparada por um sinal camuflado, e o jornal ou panfleto, eclipsava-se por entre taipais, varais, e rodas de madeira. Rodas de amigos num lugar de culto, em que a revolta e a esperança eram retalhadas, aplainadas, e unificadas com convicções vindas do coração.
Ao contrário das carroças que depois de passarem pelas mãos do Mestre Chico ganhavam nova vida, os trabalhadores rurais continuavam empenados e bebendo ilusões. Hoje, passado meio século, estão embriagados em promessas, e a caminho da extinção.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Abegoaria do Chico Carpinteiro

Foto - Danilo da Quinta


A propósito do pequeno tesouro que o Rui menciona.

O preto enastra-se por entre o negro da opressão e do obscurantismo. O branco define a ideia de luminosidade e liberdade.
Chico Carpinteiro com indumentária condicente, boina à banda, martelo na mão, ar circunspecto, quase sisudo, exprime o verdadeiro perfil do operário resistente. Símbolo do proletário na sua forma mais genuína.
Alcindo do Vale, jovem de sorriso inocente, revela-se assim, além e aquém, doutras realidades. Um figurante ocasional de um filme dramático.
Mestre Guerreiro, ar calmo, tranquilo, com uma imaculada camisa branca, numa subtil elegância em pose de galã dos anos 50. Assisado, partilha de certo por telepatia segredos e pensamentos intangíveis com o seu camarada Chico.

Foto datada de 1954, época de repressão, caracterizada aqui por dois resistentes temerários ao regime vigente de então, e que hoje respeitosamente figuram no altar das nossas memórias.

Editado em Dezembro 2007