Mostrar mensagens com a etiqueta Desabafos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Desabafos. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 31 de março de 2014

Tenho medo...


… desta geração de políticos, peças de máquinas partidárias especializadas em ganhar eleições. E chegados ao poder, cavam trincheiras, interrompem o caudal do rio e formam charcos estagnados onde proliferam e dominam. Desumanizam-se. Insensíveis ao choro dos inocentes, são fortes perante os fracos, mas submissos perante os fortes. É um desconforto danado chegar à conclusão que o governo se encontra no lado errado. Tornei-me imune, mas não indiferente, à forma como dominam e manipulam as palavras, essas gueixas submissas, que nos enchem de calor e esperança, mas gelam-nos e enfurecem-nos quando confrontadas com a realidade. Tenho muito medo de não sermos suficientemente fortes, capazes de dar as mãos, eliminar os charcos e deixar o rio fluir

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Tem dias ...(1)


… em que sou atacada pela aquela ânsia parva que me leva a dizer sim, quando devia dizer, não. Ou, a falar, quando as circunstâncias aconselham o silêncio. Apenas, porque sim. Esta sucessão de derrotas contra os meus esqueletos amontoados no armário, deixam-me estarrecida . Num desconforto desalinhado, que se infiltra pelas frestas desta fragilidade incurável e me irriga as entranhas. Corroí e corroí. Engulo a angustia mas engasgo-me com o orgulho. Bato com a cabeça na parede. Arrependo-mo. Mas não aprendo.
  

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

De costas voltadas



Quando num círculo de amigos, dois entram em rota de colisão, e pelo facto de a desavença não estar relacionado como o grupo, aos outros, pede-se recato, aconselha-se distância e ouvem-se as partes, para não se condenar antes de ser julgado. Os que que zangaram devem entender o que os divide, aos outros, exige-se que promovam a reconciliação. Mas quando as posições são extremadas e as tentativas infrutíferas; a reconciliação soa a heresia, o perdão é um termo vazio, e o esquecimento é um crime. Por questões de honra o processo de vingança é pessoal e intransmissível, afinal o equilíbrio só se repõe com o algemado acerto de contas. Como não existem testemunhas, e os verdadeiros motivos da zanga só eles sabem, e a eles diz respeito, as leis pouco podem fazer. Resta o volátil tribunal popular e o malandro do tempo. O primeiro é como o catavento, o segundo é como o azeite.

Aviso à navegação: isto é apenas um mero exercício de ficção, qualquer semelhança com factos reais é fruto da vossa imaginação.


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Partilhar



Pechão na Fonte - Santa


Vem isto a propósito de hoje de manhã, encontrar restos de comida a sair de um saco de plástico dentro do contentor do lixo que dava para alimentar duas pessoas, talvez três se estiverem em dieta.

No tempo da ditadura, a fome era assumida e a pobreza estava em maioria. Os que tinham escassos recursos e viviam com dificuldades, dividiam a comida irmãmente e rapavam o prato até deixá-lo pré - lavado, e os que não tinham nada, andavam de porta em porta a esmolar. Mas sempre que batiam a uma porta, ela abria-se, e recebiam um naco de pão com toucinho, ou um punhado de figos torrados, acompanhado de uma palavra amiga, e temperado com um sorriso complacente, tudo servia para acalmar o estômago assanhado e o espírito embargado. O sofrimento e as dificuldades generalizadas entrelaçaram as pessoas e geraram um enorme sentimento de partilha. (Sim. É o que estão a pensar! Dar sem esperar nada em troca.)  
As pessoas mudaram e os conceitos também. Agora, para gáudio dos Troikanos e angústia da plebe, os pobres silenciam a fome e os esfomeados procuram alimento no lixo, ou seja, ganhou-se vergonha de ser pobre e perdeu-se o sentimento de partilha. Apesar disso e também por isso, um Bom Natal para todos.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Felizmente …



Terreiro do Paço - 1974

...ainda existem os amigos. Não os da onça, que nos dão palmadinhas nas costas e ao virar da esquina tem o desplante de nos sacanear. Existem inúmeras normas para manter uma amizade saudável e duradoura, mas basta uma regra ser cumprida na íntegra para todas as outras se diluírem: A lealdade. E essa, encontra-se na sua maioria nos amigos da adolescência, que depois de tantos anos de cumplicidade criam uma intimidade que o tempo se encarrega de manter. Sempre prontos para o que for preciso, principalmente chamarem-nos à razão quando não a temos. E esses entram sem bater à porta.Confundem-se, e muitas vezes substituem a propria familia, provando que a espécie humana talvez não esteja condenada. Ainda.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

… e agora?



...quem trata da horta, do olival, das alfarrobeiras e das amendoeiras? Uma geração de agricultores que se esfarrapou de sol a sol para deixar um legado, ficou sem forças para erguer a enxada. Vivem num paradoxo; em novos, pujantes, esfarraparam-se para dar aos filhos aquilo que eles nunca tiveram: instrução e carreira. Em velhos, debilitados e vencidos pela idade, clamam por um sucessor. Os herdeiros procuraram outra forma de vida, longe do desconforto do campo e perto da comodidade de um emprego. Ficam com a herança mas não sabem o que fazer com ela. Os progenitores, resignados ao relógio da vida, mortificam-se ao ver as árvores de fruto ressequidas e as batatas greladas por semear, e, num último sinal de esperança, desfazem-se dos bens e do rendimento de uma vida. Ficam apenas com os olhos… para chorar.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Poço da Amendoeira





A azáfama começava ao pôr-do-sol mas era ao entardecer que se adensava. Os jumentos, obedientes e pacientes. As albardas de palha. As peculiares cangalhas de madeira e os indispensáveis cântaros de barro. Braços fortes, fracos, mas sobretudo enfezados, manejavam com perícia cordas atadas a baldes de zinco num sobe e desce frenético. Esculpiam sulcos no gargalo do poço e embutiam esgares de sofrimento em feições enrugadas. Numa curiosa mistura de angústia e felicidade, praguejávamos com o burro, o tempo, o rame-rame e o raio da sina que nos havia de calhar. Desabafos em ajuntamentos de afecto que o tempo levou. Um vida a preto e branco.